Tambor de mola e trem de rodas: como a força atravessa o movimento
Um relógio mecânico é, antes de tudo, um sistema que armazena energia e a liberta em doses iguais. A energia entra pela coroa, passa pelo mecanismo de corda e é acumulada numa mola em espiral fechada dentro do tambor. Essa mola tende a desenrolar-se de uma só vez; tudo o que vem a seguir existe para impedir que isso aconteça.
O tambor engrena com a roda de centro e, a partir daí, a força percorre a roda média, a roda de segundos e a roda de escape. Cada engrenagem multiplica a velocidade e reduz o binário. É por isso que a roda de escape gira depressa e com muito pouca força, enquanto o tambor gira lentamente e com força considerável — uma diferença que condiciona tudo, desde o tamanho dos dentes até ao tipo de óleo aplicado em cada pivô.
Quando o trem de rodas está limpo e correctamente lubrificado, deve ter aquilo a que se chama liberdade: retirado o balanço e a âncora, uma pequena impulsão no tambor deve fazer o trem correr e recuar ligeiramente no fim, por elasticidade da mola. Se isso não acontecer, o problema é quase sempre mecânico — um pivô empenado, um furo de rubi obstruído, uma roda com dentes deformados ou uma ponte mal assente — e nenhuma regulação posterior o vai compensar.